Uma conversa marcada pela emoção, pela memória e pela defesa da tradição reuniu a Mestra Imortal Vivi e o Mestre Imortal Gabi durante a Semana do Folclore 2026.
Semana do Folclore 2026
Tema: Valorização e Fortalecimento do Folclore Brasileiro
Convidados: Mestra Imortal Vivi e Mestre Imortal Gabi
Mediação: Lúcia Brunelli
Realização: Comissão Gaúcha de Folclore e UERGS
Realizado em 24 de agosto, o encontro integrou a programação da Semana do Folclore 2026, promovida pela Comissão Gaúcha de Folclore em parceria com a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), com o tema “Valorização e Fortalecimento do Folclore Brasileiro”.
A conversa colocou no centro do debate uma manifestação que muitas vezes é reduzida ao espetáculo do carnaval: o bailado do casal de mestre-sala e porta-bandeira e sua relação com o pavilhão da escola de samba.
O Pavilhão como identidade
Para a Mestra Vivi, o casal não está simplesmente executando uma dança. Mestre-sala e porta-bandeira têm a responsabilidade de representar a comunidade e proteger aquilo que simboliza sua identidade: o pavilhão.
Em sua fala, Vivi destacou que o casal não samba, mas baila, seguindo princípios de elegância, precisão, leveza e respeito. A dança, segundo ela, possui significados próprios e foi tradicionalmente transmitida de sambista para sambista, especialmente pelos mais velhos.
Saber que passa de geração para geração
Um dos pontos mais importantes do encontro foi justamente a transmissão dos conhecimentos.
Vivi lembrou experiências de aprendizado com sambistas mais antigos e destacou a transformação ocorrida nas últimas décadas, quando surgiram novos cursos e projetos destinados à formação de crianças e jovens.
Entre essas iniciativas está o Projeto Cisne do Amanhã, dedicado ao ensino do bailado de mestre-sala e porta-bandeira.
A discussão trouxe uma questão fundamental para o folclore: como ensinar uma tradição às novas gerações sem descaracterizá-la?
Modernizar ou preservar?
Vivi questionou mudanças recentes na forma como o casal é preparado e avaliado. Para ela, determinadas transformações podem afastar o mestre-sala e a porta-bandeira de referências tradicionais que deveriam permanecer.
Ao mesmo tempo, a própria conversa reconheceu que a tradição pode dialogar com novas linguagens — desde que a atualização não signifique simplesmente abandonar seus fundamentos.
A ideia apareceu de maneira simbólica quando Vivi afirmou que uma bailarina pode “lapidar”, mas não mudar a essência da tradição.
O debate, portanto, não apresenta uma resposta simples. Ele coloca uma pergunta para todos nós:
até onde podemos transformar uma manifestação cultural antes que ela deixe de ser aquilo que recebemos das gerações anteriores?
Mestra Imortal Vivi
Venésia Almeida Martins, a Vivi Martins — conhecida no carnaval como Vivi Soberana — foi apresentada como uma das grandes referências da história do carnaval brasileiro e do bailado clássico de porta-bandeira.
Ao lado de seu esposo, Mestre Gabi, formou o emblemático Casal Soberano, referência estética, técnica e simbólica do quesito mestre-sala e porta-bandeira. Em 1999, foi eleita a melhor porta-bandeira do século XX de São Paulo por um colégio de mais de 80 jurados nacionais. Em 2023, recebeu da IOV Brasil o título de Mestra Imortal.
https://iovbrasil.com.br/mestra-imortal-venezia-almeida-martins-vivi-soberana/
Mestre Imortal Gabi
Gabriel de Souza Martins, o Mestre Gabi, é apresentado na transmissão como uma das grandes referências do carnaval paulistano e da arte do mestre-sala.
Sua trajetória inclui atuação como mestre-sala, formação de novas gerações, participação na fundação da Embaixada do Samba e atuação no Projeto Cisne do Amanhã. Em 2023, recebeu da IOV Brasil o título de Mestre Imortal e, em 2025, foi nomeado coordenador-geral do Núcleo de Carnaval, Tambores e Memórias da IOV Brasil.
https://iovbrasil.com.br/mestre-imortal-gabriel-de-souza-martins/
A mediação
A conversa foi conduzida por Lúcia Brunelli, bailarina, coreógrafa e integrante da Comissão Gaúcha de Folclore, com atuação na dança e na preservação do folclore e da cultura sul-rio-grandense.
Com perguntas sobre formação, disciplina, identidade, pavilhão e transmissão dos saberes, Lúcia ajudou a transformar o encontro em uma reflexão mais ampla sobre o papel das manifestações populares na construção da identidade cultural.
Escola de samba também é espaço de educação
Outro aspecto importante da transmissão foi a compreensão da escola de samba como um espaço de convivência, aprendizagem e pertencimento — e não apenas como um lugar destinado ao desfile carnavalesco.
A conversa também abordou episódios de preconceito e tentativas de limitar a participação de crianças nos espaços das escolas de samba. A reflexão levantada foi direta: quem observa uma manifestação cultural apenas de fora pode não compreender o significado que ela possui para as famílias, para a comunidade e para a ancestralidade de seus participantes.
Esse ponto amplia o debate sobre folclore: preservar uma manifestação não significa apenas conservar sua forma externa, mas compreender os vínculos sociais, afetivos e históricos que fazem aquela manifestação existir.
Folclore é aquilo que continua vivo
A participação de Vivi e Gabi na Semana do Folclore 2026 mostrou que o folclore brasileiro não está preso ao passado.
Ele está nas pessoas que ensinam, nas comunidades que praticam, nos mestres que transmitem seus conhecimentos e nas novas gerações que recebem esse patrimônio e precisam decidir como levá-lo adiante.
A escola de samba, nesse sentido, aparece como um território de memória, educação, pertencimento e identidade.
E talvez essa seja uma das principais lições deixadas pelo encontro:
não existe preservação verdadeira sem transmissão — e não existe transmissão responsável sem respeito à memória.
A Comissão Gaúcha de Folclore encerrou o encontro agradecendo à Mestra Vivi e ao Mestre Gabi pela participação na Semana do Folclore 2026 e destacando a importância de aprender com os mestres e mestras da cultura popular.

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