Semana do Folclore 2026 Celebra o Carimbó Paraense e o Maracatu Cearense

Uma imersão emocionante na roda de conversa que reuniu a Mestra Nazaré do Ó e o Mestre Rainha Almeida para discutir a preservação dos saberes ancestrais e a força das culturas populares de Norte a Sul.

A Roda que Une o Brasil de Norte a Sul

No cenário das celebrações da Semana do Folclore 2026, promovida pela Comissão Gaúcha de Folclore (CGF) em parceria com a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), a noite de 26 de agosto de 2026 transformou-se em um vibrante terreiro virtual de partilha e ancestralidade. Sob a mediação sensível da professora Cristina Rolim Wolffenbüttel e da pedagoga Aimara Bolsi (segunda presidente da CGF), o encontro reuniu grandes guardiões da cultura popular brasileira para debater um tema vital: a transmissão geracional de saberes e a resistência das nossas tradições.

O evento, transmitido ao vivo pelo YouTube estruturado como uma autêntica "roda de conversa", evidenciou que o folclore não é um elemento estático do passado, mas uma chama viva mantida por meio do afeto, do respeito familiar e da dedicação comunitária. A noite foi aberta com a leitura do poema "Herança", escrito pela própria professora Cristina, que sintetizou o tom da noite: "Cultura é chama que se passa em mãos. Tradição é raiz que não se arranca. Guarda o que os avós cantaram, pois quem esquece a origem fica manco".

Mestra Nazaré do Ó: A Alma do Carimbó e a Resistência da Tradição Amazônica

Nascida em Soure, no arquipélago do Marajó (PA), e neta de indígenas e franceses, Maria Nazaré do Ó Ribeiro (conhecida nacionalmente como Mestra Nazaré do Ó) é uma das principais referências das artes tradicionais do Brasil. Criada em Belém do Pará a partir de sua infância, ela absorveu saberes, ritmos e narrativas de sua mãe e de sua avó indígena. Unindo sua formação acadêmica (licenciada em Artes Visuais e pós-graduada em Literatura Infantil) ao conhecimento tradicional, ela se tornou uma verdadeira embaixadora da cultura paraense.

Sua história com as artes começou cedo, aos 13 anos. Fundadora do grupo musical Águia Negra e do grupo parafolclórico Vaiangá, com sede em Icoaraci. ela foi oficialmente reconhecida como Mestra do Carimbó pelo Ministério da Cultura em 2007 e hoje atua como presidente de Honra da Academia Brasileira de Mestres Imortais do Brasil.

Durante o encontro, a Mestra explicou a origem do ritmo que conquistou o Brasil: o termo Carimbó deriva de Curimba, o instrumento central da dança, cujo nome significa "pau oco que produz som". Trata-se de grandes tambores de percussão, tradicionalmente cobertos com couro de animais. Com grande consciência ecológica, a Mestra fez questão de pontuar: "Nós temos agora que falar sobre a preservação da floresta e do animal. Temos consciência de que não podemos sair matando os animais para fazer o couro".

Para a Mestra Nazaré, o carimbó é uma vivência estritamente familiar e comunitária. Ela desenvolve suas atividades em um grande barracão cultural em sua residência, mobilizando seu marido João Ribeiro (cantor e compositor do grupo), suas filhas Mônica Gisele e Márcia Gorete, genros, netos (como a dançarina Monique) e bisnetos (como a pequena Maria Luiza, que já segue os passos da família). Entre seus projetos mais marcantes está o "Prevenção com Arte", que utiliza a música, o teatro e a dança tradicionais para afastar crianças e jovens do uso indevido de drogas.

Ao ser questionada sobre a expansão do carimbó por outras regiões, a Mestra manifestou sua preocupação com a perda da essência: "Há uma preocupação com a forma e a maneira como ele é ensinado ou vivenciado... Existe uma mistura em alguns lugares e se confunde um pouco... Nós nos esforçamos muito para manter o tradicional, sem modernizar, e dançar do jeito como sempre foi". Sua filha, Márcia Gorete, que tem mais de 20 anos de vivência na cultura popular, completou emocionada: "Não tem como não ter orgulho de ser filha dessa grande mulher, dessa grande mestra... que faz isso apenas pensando em repassar, em transmitir e fazer com que as pessoas entendam o quanto é importante valorizar a nossa tradição".


Meste Rainha Almeida: A Majestade e a Resistência do Maracatu Cearense

Vindo de uma família humilde de São João do Jaguaribe (CE), José Maria de Paula Almeida, consagrado como Mestre Rainha Almeida, trouxe para a roda de conversa uma trajetória singular. Com passagens pelo seminário e pela carreira militar, ele encontrou no maracatu a sua verdadeira missão de vida, inspirando-se nas palavras de seu pai, que dizia não possuir riquezas materiais, mas deixaria aos filhos "educação, cultura e honradez".

Co-fundador do tradicional Maracatu Vozes da África em 1980, Rainha Almeida assumiu oficialmente o posto de rainha em 1982. Ele foi a primeira rainha a representar o maracatu cearense no exterior, participando de festivals no Uruguai, Paraguai, Guiana Francesa e no Festival Mundial de Folclore na França. Ao longo de seus 45 anos dedicados ao folguedo, ele também atuou nos maracatus Az de Ouro e Nação Iracema. Reconhecido como Tesouro Vivo da Cultura do Estado do Ceará em 2017/2018, recebeu o título de Notório Saber e Fazer pela Universidade Estadual do Ceará e o título de Mestre Imortal pela IOV Brasil em 2020.



Em uma fala rica em detalhes históricos, o Mestre explicou as diferenças fundamentais entre o Maracatu Cearense e o Pernambucano. No Ceará, o maracatu possui características únicas:

  1. O Matriarcado representado por Homens: Historicamente, as mulheres eram proibidas de participar dos desfiles de rua no Carnaval. Para viabilizar o cortejo, os homens assumiram os papéis femininos da corte utilizando vestidos, coroas e maquiagens. Essa tradição permanece em muitos grupos até hoje, onde homens interpretam a Rainha e as Princesas para preservar a memória.
  2. O Rosto Pintado ("Falso Negrume"): Diferente de Pernambuco, os brincantes do maracatu cearense pintam o rosto de preto. O Mestre esclareceu que a pintura não é uma "homenagem ao sofrimento", mas sim um "falso negrume" histórico criado para proteger os brincantes de retaliações sociais e discriminação.
  3. A Centralidade da Rainha: No Ceará, a Rainha é a figura máxima, representando o matriarcado de matriz africana. "Pode faltar qualquer personagem no maracatu cearense, mas se faltar a Rainha, o maracatu não desfila".


Embora hoje não desfile na avenida devido a limitações de saúde, Mestre Rainha Almeida já formou discípulos para dar continuidade ao seu papel majestoso. Ele defende com veemência a inserção dos mestres nas salas de aula através de projetos como o "Mestre na Escola": "É necessário que este conhecimento vá às escolas para que a manifestação não morra... que seja ensinado da maneira correta aos estudantes".

O Legado que Resiste ao Tempo

A Semana do Folclore 2026 provou que o folclore é uma poderosa ferramenta de sobrevivência comunitária, cidadania e integração social. A emoção compartilhada pelos mestres, pelas famílias e pela audiência virtual destacou a urgência de valorizar e salvaguardar o patrimônio cultural brasileiro imaterial ainda em vida.

Como destacou a filha da Mestra Nazaré, Márcia Gorete, o verdadeiro valor dessas expressões artísticas só pode ser compreendido plenamente na prática: "Só sabe dar uma informação sobre um sentimento a respeito do que se aprende quando a gente vive". Que o tambor do maracatu continue a ecoar e que as saias do carimbó continuem a rodar pelas escolas, palcos e comunidades de todo o país.

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