As Guardiãs da Memória – Tramas de Vida e Resistência na Semana do Folclore 2026

 As Guardiãs da Memória – Tramas de Vida e Resistência na Semana do Folclore 2026

O encerramento da jornada cultural promovida pela Comissão Gaúcha de Folclore e a UERGS celebra o saber ancestral de mestras que transformam fibras e fios em identidades brasileiras.
"Nas mãos de luz o tempo se faz linha / O fio que a avó teceu com o coração / Na renda que o desenho agora aninha / Descansa o peso de uma antiga tradição. (...) Não é só pano é elo que perdura / Memória viva em cada ponto dado." Cristina Rolim, em "O Fio da Memória", poema dedicado às mestras na abertura do evento.
O Folclore como Organismo Vivo
No crepúsculo da Semana do Folclore 2026, em 27 de agosto, o cenário digital e presencial não era apenas de despedida, mas de uma profunda reafirmação de identidade. O evento, fruto da união estratégica entre a Comissão Gaúcha de Folclore (CGF) e a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), em parceria com a Organização Internacional de Folclore e Artes Populares (IOV) e a Secretaria de Estado da Cultura (SEDAC-RS), consolidou-se como um marco na certificação e salvaguarda do saber popular.
Para além da formalidade institucional, a coordenadora Cristina Rolim Wolffenbüttel sintetizou a alma do encontro ao evocar a "modernidade do afeto". Embora mediado por telas, o diálogo virtual não foi uma barreira, mas uma ponte contemporânea para um folclore que é, por natureza, dinâmico. Ele se adapta, sobrevive e pulsa, provando que a tradição não é uma relíquia estática de museu, mas um organismo vivo que utiliza as ferramentas do presente para garantir a perenidade de sua raiz.
Enquanto a taboa de Cleide ancora a terra nos pântanos paulistas, a renda de Dinoélia flutua no sopro do Recôncavo, provando que o fio da memória é tanto fibra quanto ar.
Mestra Cleide Toledo (https://iovbrasil.com.br/9255-2/): A Alquimia da Taboa e o Legado do Afeto
A trajetória de Cleide Toledo no artesanato estende-se por 45 anos, uma jornada que exigiu a transição da área da saúde para a lida direta com o brejo. O aprendizado da taboa, planta típica de áreas alagadiças, envolve um processo rigoroso de "alquimia": a colheita precisa ser feita no ponto certo, seguida de uma limpeza meticulosa e um "ponto de secagem" crucial. Se a fibra tomar chuva após seca ou for trabalhada úmida, ela irá embolorar, perdendo-se o trabalho de dias.
Casada com um grande mestre, Cleide viveu anos sob um "bloqueio do trançar", impulsionado pelo medo pressagiado pelo marido de que ela precisaria do ofício após sua partida. Em 2006, o presságio tornou-se realidade dolorosa. Viúva e com dois filhos pequenos, Cleide teve que aprender a técnica "pela dor", assumindo a bancada onde ele trabalhava para não ver o lugar vazio. Hoje, ela não apenas preside a Federação dos Artesãos de São Paulo (FEAPESP), mas é uma voz fundamental na IOV Brasil.

Tabela de Conquistas e Projetos
Desafio / Projeto
Impacto / Significado
Miniaturas para Florença
Produção de mobiliário em escala reduzida para o Museu da Palha (Itália), resgatando técnicas de trançado que já não possuíam praticantes ativos na Europa.
As 12 Colunas da Pinacoteca
Criação de 12 colunas monumentais de 5 metros de altura para a Pinacoteca do Estado de São Paulo, desafiando a escala do trançado tradicional.
Parceria com Rolando Boldrin
17 anos de cenografia e curadoria no programa "Sr. Brasil", garantindo visibilidade nacional a artesãos de todo o país e fomentando a cadeia produtiva.
O Valor da Generosidade: Atualmente, a Mestra Cleide exerce uma liderança pautada na Economia Solidária:
  • Renúncia ao Protagonismo Comercial: Em feiras nacionais, ela opta por não expor suas próprias peças, cedendo o espaço integralmente para outros artesãos que buscam sustento e visibilidade.
  • Educação Social: Ministra cursos em presídios e na Fundação Casa, utilizando o artesanato como ferramenta de ressocialização e dignidade humana.
  • Articulação Política: Luta para que o artesão saia de "trás da mesa" e ocupe espaços de decisão e direito.
Mestra Dinoélia Trindade (https://iovbrasil.com.br/6932-2/): O Clamor dos Bilros por Liberdade
Natural de Saubara, no Recôncavo Baiano, Dinoélia Trindade é a 5ª geração de uma linhagem de rendeiras. Sua arte carrega uma reflexão profunda sobre o trauma e a cura: ela recorda que sua avó, embora tecesse rendas magníficas, nunca as vestia. No subconsciente daquela mulher, a renda era algo feito por mãos escravizadas para o uso exclusivo dos "senhores". Dinoélia rompeu esse ciclo. Para ela, o som dos bilros é um "grito de liberdade" — a renda agora pertence a quem a cria, e a mestra faz questão de usá-la com o orgulho de quem é dona de sua própria história.


Ferramentas de Resistência e Criatividade
Diante da escassez histórica, as rendeiras transformaram a natureza em extensões de suas mãos:
  1. Almofada de Folha de Bananeira Seca: O suporte ancestral, firme e maleável, que sustenta o gráfico da renda.
  2. Bilros de Semente de Buri ou Madeira: Instrumentos que ditam o ritmo percussivo do tecer.
  3. Espinho de Mandacaru: Utilizados historicamente como alfinetes de precisão para fixar os pontos.
  4. Algodão Nativo: Plantado, colhido e fiado manualmente para compor a trama original.
Transformação Social e Reconhecimento Global Em Dias d'Ávila, a Mestra fundou a Associação Rendavan, transformando a arte em uma resposta direta à violência comunitária. O projeto tornou-se um Ponto de Cultura focado no empoderamento feminino e na capacitação gratuita. Com exposições em Paris, Chile e Canadá, Dinoélia ostenta o título de Mestra Imortal pela UNESCO/IOV. Em um gesto de coragem política, aproveitou a tribuna em Nova Petrópolis para apelar a chefes de Estado pela proteção urgente das tradições populares brasileiras.
As vozes de Cleide e Dinoélia unem-se agora em um coro necessário: o saber ancestral exige direitos, reconhecimento e pão.
A Luta Política: Do Saber ao Sustento
O diálogo entre as mestras e as instituições (CGF, UERGS, SEDAC-RS) deixou claro que a salvaguarda do patrimônio imaterial passa, obrigatoriamente, pela dignidade financeira. Não basta o título de "Mestra" se não houver condições de sobrevivência e repasse. O clamor é pela Sucessão do Saber, um conceito de Economia Solidária que vê o mestre como um agente de desenvolvimento econômico.
A Semana do Folclore 2026 reafirma que a tradição não é uma chama que se guarda sob uma redoma, mas uma chama que se passa adiante. Através das vidas de Cleide e Dinoélia, compreendemos que o folclore vive no afeto, na resistência política e na transmissão geracional. A responsabilidade de manter essas chamas acesas é coletiva: cabe ao Estado, à Universidade e à sociedade civil garantir que o fio da memória jamais se rompa por falta de cuidado ou investimento.

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