segunda-feira, 31 de julho de 2023

Contos do Curso de Formação Folclórica de 2022

 

Como forma de preservar e valorizar as manifestações culturais populares do Rio Grande do Sul, despertar o interesse e o gosto pelo folclore regional, bem como enriquecer o conhecimento de novos integrantes, a Comissão Gaúcha de Folclore disponibiliza o Curso de Formação Folclórica, todos os anos. Ao final do curso é solicitado um trabalho que, no ano de 2022, foi sobre a pesquisa e elaboração de um conto local.

 

Quem traz o conto de hoje é de Pablo Cassio Soares Vaz


“O Morto da Produção”

O Santo Popular de Soledade - RS

 

          Em 1965 em Soledade - RS acontece um “Misterioso Assassinato”, um corpo sem identificação é achado às margens da estrada da Produção (atual BR 386), desafiando a astúcia da polícia local e comovendo a cidade inteira. Criam-se boatos que aumentam a fama do morto, mas atrapalha o andamento do caso que continua sem solução até os dias de hoje, o imaginário popular e interesses políticos criam várias versões sobre o fato e elementos sociais ajudam a transformar um desconhecido em um Santo Popular.

A Região de Soledade na década de 60 sofria fortes resquícios do coronelismo, segundo José Murilo de Carvalho, “o coronelismo como sistema nacional de poder, acabou em 1930, mais precisamente com a prisão do governador gaúcho Flores da Cunha, em 1937. O centralismo estado novista destruiu o federalismo de 1891 e reduziu o poder dos governadores e de seus coronéis. Todavia, os coronéis não desapareceram por completo”, deste modo o desemprego e a desigualdade social se acentuavam, com uma política autoritária e centralizada, tinha como algum de seus resultados como afirma José Pinheiro (1965, p.5), a perda de seus distritos que um a um se emancipavam abruptamente e deixavam chagas irreparáveis na grande mãe. Sendo um município histórico onde sua emancipação ocorreu no século XIX (1875), sempre foi encalço de várias histórias, lendas e mitos, inclusive o que se diz dar início a povoação na região à chamada “Lenda de Soledade”.

Assim na oralidade popular se acentua as várias versões criando-nos inúmeros “historiadores de contos”, desta forma a qualquer acontecimento sem explicação na cidade, sempre se existia versões que explicavam e elucidavam o caso, não sendo diferente ao objeto aqui estudado.

O motivo pelo qual escolhemos esse tema seria para ter mais conhecimento da trajetória deste homem que se torna um “Santo Popular”, após a sua morte, mas em vida é um completo desconhecido, principalmente ao analisar a situação política e social da década de 60, na região de Soledade. Assim, fazer uma ligação para argumentar sobre o motivo que uma comunidade inteira se torna devota de um estranho.

O estudo é relevante, pois poderemos colocar um olhar novo sobre os resultados políticos e comunitários na região de Soledade, a necessidade de identificação de uma comunidade e seu escape social devido às intempéries da década de 60.  Desta forma, analisando a situação política social propícia para o acontecimento a nível regional comparando com o estadual e federal.

Torna-se viável esta pesquisa na forma em que o registro do personagem em questão está em parte de posse do policial designado da época, este também contribuiu com uma valorosa memória oral, e ainda os periódicos da época que relataram os fatos. Somados as memórias orais de devotos e a possibilidade de encontrar o processo do crime inteiro sobre o personagem estudado.

Não encontramos informações sobre qualquer publicação acadêmica, apenas uma publicação no livro Mitos e Lendas do Rio Grande do Sul de Antônio Fagundes (2009, p.42), que acreditamos ser de apenas memória oral, pois não há referência alguma. Esta pesquisa anterior tentava buscar a vida antecedente do personagem e não pontua a sua interferência social, a sua transformação quase que instantânea e “milagrosamente” em santo.

Por isso o método de pesquisa não se restringe a vida do personagem, mas sim tenta explicar a ação dessa população que buscou em um desconhecido a solução para seus problemas.

Em relação ao imaginário social os títulos trabalhados são as Ideologias e Mentalidades e de Michel de Vovelle, A Escrita da História de Michel de Certeu.

No primeiro o autor compara as mentalidades e ideologias e considera seus pontos em comum e suas diferenças, as mentalidades compostas de acordo com as vivências empíricas e a ideologia mais elaborada criadas com o propósito de dominação de classe, mas em comum descreve Vovelle

Todavia existe entre os dois termos uma indiscutível e ampla área de superposição. [...] para alguns que as mentalidades se inserem naturalmente no campo do ideológico, enquanto para outros a ideologia, no sentido estrito do termo, não poderia ser senão um aspecto ou um nível no campo das mentalidades. (VOVELLE, 1991, pag. 17).

O autor ainda relata de um terceiro nível não marxista, que apesar de ser um compromisso burguês tem preocupações coletivas.

Nesse investimento coletivo na historiografia dos países liberais, [...] parece nitidamente ser a noção de mentalidade mais flexível, desembaraçada de todo conotação ideológica, a parte premiada e mais operatória, a melhor habilitada, graças à própria sutileza de que se reveste, a responder às necessidades de uma pesquisa sem pressupostos. (pág. 18).

Mesmo entre as diferenças entre mentalidade e ideologia e os vários pontos de vista dos historiadores de acordo com sua linha de pesquisa Vovelle conclui a importância da história das mentalidades

O estudo das mentalidades, longe de ser um empreendimento mistificador, torna-se, no limite, um alargamento essencial do campo de pesquisa. Não como um território estrangeiro, exótico, mas como prolongamento natural e a ponta fina de toda história social. (pág. 25).

Desta forma mostra-se a importância da história das mentalidades e sua aceitação como história acadêmica cientifica, e transformar a história oral em escrita, muito mais mistificada depois de passado a geração, mas não impossível de sua veracidade.

Assim como relata Michel de Certeu em a Escrita da história no capitulo a tradição da morte onde é relatado “É necessário morrer de corpo para que nasça a escrita. Esta é a moral da história. Ela não se prova senão graças ao sistema de um saber. Ela se conta”. (CERTEAU, 3° ed., 2011).

Ainda insistimos com a colocação de José Carlos Sebe Bom Meihy em o Manual de História oral à seguinte conclusão

Como pressuposto, a história oral implica uma percepção do passado como algo que tem continuidade hoje e cujo processo histórico não está acabado. A presença do passado no presente imediato das pessoas é a razão de ser da história oral. Nesta medida, a história oral não só oferece uma mudança para o conceito de história, mas, mais do que isso, garante vida social à vida dos depoentes e leitores que passam a entender a sequência histórica e sentir-se parte do contexto em que vivem. (MEIHY, 3°ed. 2000).

Depois dessa visão da memória oral de mentalidades e ideológicas tão necessária para o nosso projeto, pois a base são os relatos orais e periódicos, não podemos esquecer a menção política tão atenuante nessa região que ajuda a distorcer fatos e até criar outros.

A necessidade de chegar ou manter-se politicamente no poder e a prejudicar adversários de outros partidos leva a transformar um caso, considerado comum em seu caráter de homicídio, a um desfecho político.  Desta forma como relata o periódico soledadense “O Paladino” em que menciona a acusação de uma família soledadense pelo crime “segundo apurou nosso jornal pessoas inimizadas com Wanseslau Coelho Portella e seu filho Mário, ambos residentes neste primeiro distrito, onde gozam de ótimo conceito, procuraram incrimina-lo dando azo à instauração de inquérito policial a respeito” (1965, p. 3) o periódico descreve, a seu interesse, ser uma acusação falsa para com essa família de Soledade.

Como relata Caroline Webber Guerreiro à violência política em Soledade é acentuado em relação a outros municípios, este insiste em cultuar suas eras de coronelismo como se fosse atual, indivíduo mandatário político usando-se de vários meios para se manter no poder, assim influenciando todas as esferas da sociedade, “Não se pode negar que as inúmeras práticas ilícitas, em grande parte violentas, ligadas a tentativas de manutenção do poder de mando através da vitória nas eleições tenham deixado sua marca na população de Soledade, ocupando espaços no imaginário local"(GUERREIRO, 2005, p. 133).

Desta forma exaltamos a influência política a casos que de fato seriam relevantes a o meio criminal, mas dependendo da situação na visão do articulador certo, se vira um grande trunfo político.


Por Francesca Mondadori