quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Alunos comemoram a primeira noite de curso da CGF


     Os professores e folcloristas Ivo Benfatto e Paula Simon Ribeiro foram os palestrantes da primeira aula do Curso de Folclore – “Folclore e Tecnologias”, iniciado ontem (23) à noite, de forma on line, pela plataforma Meet, reunindo mais de 40 inscritos.

    A promoção é da Comissão Gaúcha de Folclore, com o objetivo de qualificar o público interessado em preservar as culturas populares. As aulas prosseguem na noite desta quarta, das 20 às 22h, com o tema “Músicas/danças e tecnologias”, ministradas por Lucia Brunelli e Jacson Jaques.

    O curso tem apoio da Comissão Nacional de Folclore e da Fundação Santos Herrmann, com mediação inicial de Aimara Bolsi e Mara Muniz da CGF.

No primeiro encontro, Paula Ribeiro e Ivo Benfatto falaram sobre os conceitos gerais do Folclore, que passou a ter essa denominação formalizada em 22 de agosto de 1846, por iniciativa do arqueólogo inglês William John Thoms.

    Com o pseudônimo de Ambrose Merton, ele escreveu uma carta à revista londrina “The Atheneum”, sugerindo que as, então chamadas, “Antiguidades Populares”, ou “Literatura Popular”, tivessem uma denominação digna de sua importância, já que estavam sendo desprezadas e esquecidas pouco a pouco. Para isso, utilizou duas palavras anglo-saxônicas, Folk (povo) e Lore (saber), nomeando os saberes e fazeres populares.

    Os palestrantes prosseguiram a aula mostrando todos os caminhos do Folclore até os dias de hoje, especialmente no Brasil, com algumas mudanças em sua definição original.

    Segundo Carmen Alminhana, do CTG Carreteiros da Saudade, o curso desperta um forte sentimento de pertencimento ao se aprender sobre o folclore. "O privilégio de poder aprender com quem ama o Folclore! E a certeza de pertencimento e de estar no caminho certo!" - afirmou.

    A chegada da tecnologia, de acordo com os professores, não apaga a cultura popular que cada pessoa possui, herdada através de seus antepassados. O Curso de Folclore vai até o dia 25 de agosto, sexta-feira, com palestras de Marco Aurelio Alves e Cristina Rolim (Identidade Cultural e Tecnologias) e Osvaldo Trigueiro (Folkcomunicação).


Algumas frases dos participantes 2023:

Luiz Antonio Farias

"Excelente combinação de conteúdos dos palestrantes, permitindo uma visão panorâmica e histórica, assim como oportuno aporte teórico sobre cultura, tradição e folclore. Ótima aula!"

Talita Polmann

"Uma frase que formulei ontem, quando o Matheus falou sobre a cuia foi: O folclore se adaptando, mas sem perder sua essência. Ontem foi excelente!"

Geisa Guterres

"Uma noite encantada assim como o folclore. Aprendizagem e muita troca de ideias."

Luciane Brum

"Celebrando o folclore com nossos saberes e fazeres".

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Contos do Curso de Formação Folclórica de 2022

 

Como forma de preservar e valorizar as manifestações culturais populares do Rio Grande do Sul, despertar o interesse e o gosto pelo folclore regional, bem como enriquecer o conhecimento de novos integrantes, a Comissão Gaúcha de Folclore disponibiliza o Curso de Formação Folclórica, todos os anos. Ao final do curso é solicitado um trabalho que, no ano de 2022, foi sobre a pesquisa e elaboração de um conto local.

 

Quem traz o conto de hoje é Fátima Gimenez

Entrevista com o cantor, compositor, pesquisador e escritor Juliano Javoski:

 

    Quando eu era “gurizote”, lembro que meu avô e eu, mais uma turma “gostavam” de caçar tatú. A gente morava prá fora, na periferia de Butiá, praticamente a zona Rural de Butiá. E íamos volta e meia sair prá uma caçada. 

    Numa dessas fui eu, meu avô, o falecido Almedorino, o Alcides Carvalho que tocava pandeiro e era gari da Prefeitura e também o “Perneta” que se eu não me engano era o Adalmir. Eu era o menos vaqueano ali, com certeza o mais vaqueano era justamente o Alcides. E saímos numa noitada, batemos casco acho que umas três, quatro horas e pegamos um monte de mulita! 

    Viemos com dois ou três sacos cheios de mulita. E na volta se “perdemo” porque era de noite e no meio da escuridão tinha um eucalipto enorme e um capão de mato na volta também! Não era fácil!  Só sendo muito vaqueano mesmo. 

    Então tá!  Perdidos e acho que caminhando em círculo, daqui há pouco fomos parar num banhadal, te falo de atoleiro, um pajonal, já quase clareando o dia, nós conseguimos sair e depois de andar mais uns 50 metros chegamos lá na outra ponta. Teve gente que perdeu alpargata, chinelo e tal. O “Perneta” perdeu a alpargata e o Alcides muito prestativo disse:


     - Peraí que eu vou ali achar.


    E dizendo isso se atirou no barro, começou a catar e achou a alpargata do Perneta e atirou lá na grama. Não satisfeito, quis completar o favor. Voltou pro barro e começou a procurar, quando perguntaram a ele: 

 

     - O que tá procurando, Alcides?

 

     - Tô procurando o outro pé! 

 

    E aí o Adalmir Perneta grita de longe:


     - Alcides! Eu só tenho um!

 

 

“Cada um com seu Fascínio”

 

    A tarde parecia inexistir, parada no tempo, em virtude da calmaria que pinta naquele recanto onde vive Josué.  Ele pega um livro, uma cadeira confortável e se põe sob a sombra mais fresca do pátio. Respira o silêncio e degusta página a página daquela obra maravilhosa que lhe abre a cada parágrafo um mar de imaginação. Mergulha num emaranhado de imagens que lhe fascina e com isso isola-se do mundo exterior.  Já não sente os pés descalços sobre a grama milimétricamente cortada. A brisa refresca seu rosto com suavidade, sem conseguir trazê-lo à tona.  Está imerso em parábolas e metáforas, sentindo a alma decifrar poeticamente aquelas imagens genuínas e magistrais, quando de repente é trazido ao mundo real por um vizinho 

que nada alegremente em sua piscina a duas casas da sua e grita fascinado: 


      - Que vida boooa!!! 


    Josué tira os olhos do interior da página e pensa quase em sussurros, que bom, há um vizinho feliz com a vida que leva.  Volta para o miolo do conteúdo que lhe entra pelas retinas, mas em menos de cinco minutos ouve novamente a mesma exclamação, vinda da mesma direção, expressa pela mesma voz.  Sem tirar os olhos da página: o vizinho realmente está feliz pela vida que Deus lhe deu, ou o diabo... e continua sua proveitosa leitura.  Quando chega ao fim da próxima página ouve mais a repetitiva frase, já não se alegra com a felicidade do outro. Na metade da seguinte, outra vez, o que está se tornando molestador e já não lhe deixa continuar imerso no tema fascinante que o autor daquela obra lhe entrega, sem exigir nada em troca, haja vista que o magnífico é um presente da sua amada...  Ao virar a página, começa a ouvir o barulho do papel, algo imperceptível até então, por estar concentrado no tema do livro.  Ao iniciar a primeira frase de um deslumbrante parágrafo ouve novamente aquela voz retumbante em seus ouvidos: 


     - Que vida boooa!!! 


   Josué fecha o livro, deixando um dedo como marca página, levanta da cadeira e silenciosamente invade o pátio do vizinho que, estupefato observa calado o invasor. Senta-se a beira da piscina, põe os pés dentro d’agua, pega um copo de cerveja que está a borda, bebe num gole todo o líquido, abre o livro e segue sua leitura em voz alta, no mesmo tom e volume da exclamação do vizinho feliz. Lê um parágrafo, olha bem no olho do dono da casa e grita:  


     - QUE LIVRO BOOOOOOM!!! 


    Levanta-se e sai em silencio, tal como chegou.  

 

                                        -  Paulo de Freitas Mendonça

(Poeta, pajador, compositor, declamador, apresentador, roteirista, produtor e estudioso da cultura latino-americana.)



Por Francesca Mondadori

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Contos do Curso de Formação Folclórica de 2022

 Como forma de preservar e valorizar as manifestações culturais populares do Rio Grande do Sul, despertar o interesse e o gosto pelo folclore regional, bem como enriquecer o conhecimento de novos integrantes, a Comissão Gaúcha de Folclore disponibiliza o Curso de Formação Folclórica, todos os anos. Ao final do curso é solicitado um trabalho que, no ano de 2022, foi sobre a pesquisa e elaboração de um conto local.

 

Quem traz o conto de hoje é José Mondadori


Minha Infância Não é um Conto, Mas Vale um Conto


Dizem que a palavra “saudade” só existe na língua portuguesa e que exprime um sentimento de melancolia devido ao afastamento de alguma pessoa, uma coisa um lugar ou a lembranças de experiências prazerosa já vividas.

Assim resolvi contar um pouco da minha infância afim de que essa saudade não seja somente minha, e também possa ativar as belas lembranças de todos leitores.

Era início de março de 1963, e os últimos dias de verão corriam. Meus amigos e vizinhos passavam na frente da minha casa alegres e faceiros porque iam pra escola pela primeira vez. Me abanaram e me convidaram a ir também. Como não tinha idade suficiente, mas com a empolgação de vê-los e não querer ficar de fora, minha mãe foi até a escola para conversar com a Diretora, pois eu já era pré-alfabetizado em casa. Estava dentro, mas como um consignado, isto é, se passar passou, senão voltaria a fazer o primeiro ano novamente. O Ensino Fundamental naquela época chamava-se Primário, e a escola municipal, Grupo Escolar Gumercindo dos Reis.

Todas as tardes antes de bater a sineta haviam brincadeiras de roda, jogos de bolinha de gude (bolita), batidas de figurinhas, concurso de bilboquê, guerrinha de bodoque com bolinhas de cinamomo; coleguinhas levavam tampinhas de garrafa para trocar, pois tinham coleção, chaveirinhos, figurinhas de chiclete Ping-Pong do Gordo e o Magro, carteiras vazias de cigarro, canetas e lápis. E aos domingos após o almoço, nos encontrávamos com outras crianças na fila do matiné dos cinemas Real, Imperial e Pampa, a trocar gibis do Tio Patinhas, Fantasma, Mandraque, Brasinha, de Faroeste entre outros.

Com a Professora Marli aprendi a ler, escrever, somar e diminuir. Ela tinha um diário de classe e cada dia um aluno(a) escrevia nele a matéria daquele dia. Um jeito simples de guardar para a eternidade a sua classe. 

Minha experiência com aquele diário foi terrível. Em vez de levá-lo pra casa e escrever nele depois, não aconteceu, e assim cometi o mais sério borrão de toda a minha vida. A borracha era de duas cores, azul para apagar caneta, e alaranjado para apagar lápis. Cheguei a rasgar a folha de tanto apagar. Depois que cometi essa gafe, tive o contato com a primeira empulhação. Mostrei para o colega ao meu lado e lhe disse baixinho e apavorado: “E agora?” Ao que me respondeu na lata: “Caga na mão e bota fora”. Ri tanto que as lágrimas vertiam dos olhos. Uma colega quis saber o que estava se passando e larga olhando pra nós: “Quem cochicha o rabo espicha”. “E quem se importa o rabo entorta” respondeu ele rapidamente. “Quem?” pergunta ela novamente. “O trem”, disse ele de bate pronto.

Como o ano anterior era de eleições e o Governador do Rio Grande do Sul, o senhor Leonel Brizola se elegera Deputado Federal pelo Rio de Janeiro e o candidato do seu PTB, o senhor Egídio MIchaelsen perdera a disputa pelo governo estadual para o senhor Ildo Meneghetti, a piada da época era: Passadas as eleições e escrutínios, Egídio Michaelsen telefona para Brizola para lhe cumprimentar pela bela vitória no Rio de Janeiro e pergunta: “Leonel, o que é que eu faço com a sobra do dinheiro da campanha?” Ao que Brizola lhe responde: “Mica gaste todo!”

E quando da solenidade de posse do novo Governador, em março de 1963 houveram muitos discursos, sendo o penúltimo reservado à Senhora Judite Meneghetti, esposa do Governador eleito, que lascou essa verdadeira pérola que minha mãe ouviu pelas ondas curtas da Rádio Farroupilha: “Na condição de Primeira Baguala do Rio Grande...”

E assim seguia-se a vida. Muita conversa e dúvidas na sala de aula até que alguém não aguentava mais e proclamava: “Vaca amarela cagou na panela. Um mexeu, outro lambeu. Quem falar primeiro come toda a bosta dela”. Silencio total.

Nos recreios após o lanche, desfilávamos cantando o “Marcha soldado cabeça de papel, quem não marchar direito vai preso pro quartel. O quartel pegou fogo, Francisco deu sinal. Acuda, acuda, acuda a Bandeira Nacional”.

E também o “Um dois, feijão com arroz.  Três quatro, feijão no prato. Cinco seis, final do mês, Sete oito, comendo biscoito, nove dez, comendo pastéis”.

Quem era bom jogador de bolita, bilboquê ou tinha boa pontaria no bodoque, dizíamos que que o cara era “seco” e quem era ruim era “figo”.

O que me chamava muito a atenção era a forma que alguns dos guris seguravam o bolita para jogar. Era o famoso “cu de galinha”.

Havia também as corridas na quadra, 50 ou 100 metros, e sempre tinha alguém a gritar:             “Quem chegar por último é mulher do Padre”.

Veio o outono e as folhas secas das árvores caíam espalhando-se vagarosamente pelo chão, enquanto as do meu caderno enchiam-se de ditados e contas. As histórias da Cartilha do Guri com Olavo e Élida nos aqueciam nos preparando para o inverno. E como foi frio aquele inverno em Passo Fundo. E se alguém ousasse dizer “Tô com frio”, rapidamente alguém replicava: “Bota o cu no rio. Dá um assobio pro teu tio, que ele vem te buscar de navio”. E se alguém não gostasse do versinho e jogasse uma praga para que o falasse, esse alguém imediatamente bradava: “Praga de urubu cai no mesmo cu”.

Ano velho chega afim e o consignado aqui, passou. Mas meu boletim que guardo até hoje junto com todos os outros, não há nenhuma nota a não ser as finais, porque “se passar, passou”.

Durante as tardes das férias jogávamos bola no campinho perto de casa e depois tomávamos banho na sanga que passava ao lado do campinho, onde sempre íamos buscar a bola molhada.

As noites de verão após a janta, ficávamos reunidos no gramado nos fundos do nosso pátio onde contávamos as estrelas à medida que iam aparecendo no céu, e os mais velhos nos diziam que “contar as estrelas aparecem verrugas nos dedos que as apontam”.

Meu pai gostava muito de fazer perguntas e charadas e mesclava com histórias de quando era solteiro. E quando eu enchia a sua paciência, ele dizia pra mim: “Guri, vai peidar na água pra ver se sai bolinhas”.

Adorava ver as estrelas, os satélites passando, as fases da Lua. E quando o pai e a mãe se recolhiam, porque não tínhamos televisão, brincávamos de Polícia e Ladrão, Talero e de se esconder com a gurizada da vizinhança na rua. Tudo era muito calmo e tranquilo, sem violência e sem medo.

Havia uma vizinha benzedeira na nossa rua e pra cada enfermidade tinha uma reza diferente. A que mais me marcou era assim: “O que que eu cozo? Cobreiro brabo. Corto a cabeça e corto o rabo”. E pra fazer troça dela inventamos um versinho: “Te benzo e curo que debaixo do rabo do burro tem um furo”.

Já era março de 1964 e eu todo faceiro no segundo ano. Porém no final daquele mês estoura a Revolução e o Presidente João Goulart, o Jango, é deposto. Ele e Brizola fogem para o Uruguai, e o Governador Meneghetti temendo ser deposto, foge pra onde? Passo Fundo.  Mas nada daquilo impediu as aulas. Meu pai, Brizolista e Getulista que era teve que engolir seco. E os petebistas de plantão inventavam musiquinhas, paródias sobre o ocorrido. Consegui resgatar alguma coisa:

“Meneghetti, ghetti, ghetti,

Não te mete Meneghetti,

A fazer Revolução.

Porque enquanto o povo apanha,

O Cabral e o Zuza Aranha

Tomam whisky de montão.

                               Apesar da pouca idade

                               Meneghetti compreendeu

                               Que a sua felicidade

                               Foi Judite quem lhe deu!

Meneghetti, ghetti, ghetti ...

                               Foge Jango, foge Briza

                               Foge Deus e todo o mundo,

                               Só não foge Meneghetti

                               Porque foi a Passo Fundo!”

A partir dessa paródia da música Dominique, quando alguém se metia na conversa dos outros, um dos envolvidos bradava “Não te mete Meneghette!” que por incrível que pareça continua até hoje.

Minha professora agora era a Dona Ozaíla. Uma professora fora de série. Com ela fazíamos teatro de varetas, fantoches e marionetes. Nosso grupo de teatro era a sensação da escola. Apresentávamos A Descoberta do Brasil, a história do Curumim o índio valentão, A Dona Baratinha, além de criarmos nossas próprias estórias com a sua supervisão. E nelas colocávamos musiquinhas como:

“Essa noite tive um sonho que jogava futebol,

Acordei de manhã cedo chutando meu urinol!

Essa noite tive um sonho que chupava picolé,

Acordei de manhã cedo chupando o dedo do pé.”

 

Havia outras que cantávamos fora do ambiente escolar como:

“Rodolfo Valentino, morreu de operação,

Deixando a pobre nega com dor no coração.

Rodolfo Valentino, morreu de dor de dente,

Deixando a pobre nega sentada na patente.”

****************************************

“São Paulo quatrocentão, baixei as calça e caguei no chão,

A bosta endureceu, passou o auto e furou o pneu.

Levaram pra Prefeitura, examinar se era bosta dura.

Levaram para o xadrez, e só de raiva caguei outra vez.”                                                                            

 

 

Jingo bell, jingo bell, acabou o papel,

Não faz mal, não faz mal

Limpa com jornal.

                O jornal tá caro.

                Caro pra chuchu.

                Com ele não se pode

                Nem limpar o cu.

 

 

À medida que os anos iam passando aprendíamos outras coisas folclóricas como por exemplo, quando perdíamos um objeto e procurávamos e não tinha jeito dele aparecer, desenhávamos um círculo pequeno na terra que significava o cu do diabo e fincávamos uma estaca nele. “Finca uma estaca no cu diabo, diziam, que o objeto procurado aparece”. E aparecia. Depois tínhamos que ir lá fora tirar a estaca do círculo.

E as famosas empulhações da gurizada:

“Quem não tem perna é...? Perneta.

Quem não tem mão é...? Maneta.

Quem não tem punho é...? P......”

“Quantos ovos têm em oito dúzias e meia?

Cento e dois ovos.

Então senta aqui”.

Assim fui brincando, crescendo, sonhando, me divertindo, aprendendo, fazendo amigos. Ginásio, científico, quartel, faculdade. Tornei-me um homem. Mas as coisas de menino não ficaram lá na infância. Trago-as numa caixinha dentro da minha mente e de vez em quando conto aos meus filhos e aqui as coloquei no papel.

Não sei se minha infância foi um conto ou valeu um “conto”, afinal de contas não a vendi nem a estou vendendo. Estou isto sim compartilhando-a, revivendo-a e dando gargalhadas.

Espero que tu também tenhas se divertido dado boas risadas.


Por Francesca Mondadori

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Contos do Curso de Formação Folclórica de 2022

 

Como forma de preservar e valorizar as manifestações culturais populares do Rio Grande do Sul, despertar o interesse e o gosto pelo folclore regional, bem como enriquecer o conhecimento de novos integrantes, a Comissão Gaúcha de Folclore disponibiliza o Curso de Formação Folclórica, todos os anos. Ao final do curso é solicitado um trabalho que, no ano de 2022, foi sobre a pesquisa e elaboração de um conto local.

 

Quem traz o conto de hoje é Luiz Antônio Farias Duarte

 

UM CTG COM UM C A MAIS

Porque o Lila Alves, de Pinheiro Machado, é um C.C.T.G

O que aqui se conta é a razão da existência de uma letra a mais na tradicional abreviatura para Centro de Tradições Gaúchas, neste caso em relação ao do município de Pinheiro Machado. A letra em questão é um segundo C, compondo, logo após o primeiro, o consagrado C.C.T.G. Lila Alves, que desde a década de 1950 anima a vida cultural local. A inserção é histórica, afetiva e plenamente justificável, como se verá a seguir.

O território onde hoje existe o município de Pinheiro Machado, 350 quilômetros ao sul de Porto Alegre, entre as Serras das Asperezas, do Passarinho e dos Velleda, a meio caminho entre Pelotas e Bagé, foi ocupado primeiro pelos índios ibitiruçu; depois pelo militar Rafael Pinto Bandeira (1740/1795), a seguir por seu cabo de ordens José Maria Rodrigues, o “Corrupio”; e finalmente pelos açorianos Thomaz Antônio de Oliveira, o “Nico” e José Dutra de Andrade, a partir de 1790 – conforme obra do tataraneto deste último, Odil Peraça Dutra (2017, p. 30-38).

Coberta por banhados extensos e pela mata nativa, essa região fronteiriça entre os espaços da coroa portuguesa com a coroa espanhola já era conhecida como Coxilha das Cacimbinhas em 1750, de acordo com o que apurou e registrou Dutra (2017, p. 39). Por essa época, o trânsito de animais era feito em tropas e o transporte de mercadorias, em carretas. Tanto tropeiros quanto carreteiros criavam suas rotas seguindo os cursos naturais de água, fazendo seu pouso junto às cacimbas que abriam para se abastecer. Natural foi, portanto, que o lugar recebesse o apelido de “Cacimbinhas”.

Quando, já instalado nas redondezas, José Dutra de Andrade ficou cego, fez à Nossa Senhora da Luz o voto de erguer uma capela em homenagem a ela, caso voltasse a ver ao lavar os olhos nas águas de uma das cacimbinhas. É nesse ponto que a realidade e a fantasia se encontram nas narrativas que contam o milagre obtido: Andrade (e Nico) realmente existiu (ram) e é (são) pioneiro (s) na colonização do município. Já o milagre circula como transferência de informação oral e escrita desde então, mas não tem reconhecimento oficial por parte da Igreja Católica.

De qualquer forma, e voltando aos fatos: Andrade combinou com o conterrâneo e lindeiro a doação conjunta de um “trato de terra”, efetivada em 10 de abril de 1851, para ereção de uma capela à Nossa Senhora da Luz “no lugar denominado Cacimbinhas, que passou a chamar-se oficialmente Curato de Nossa Senhora da Luz” (Dutra, 2017, p. 41). Com a natural edificação de residências nas proximidades do modesto templo, Cacimbinhas foi elevada à categoria de freguesia em 1857 e à vila em 1878 – segundo narra em anotações manuais o comendador Manoel José de Freitas, em documento preservado no Museu Histórico Farroupilha, de Piratini, ao qual Dutra teve acesso.

De 1878, ano de sua emancipação, a 1915, Cacimbinhas evoluiu como um dos mais antigos municípios rio-grandenses, com população predominantemente rural e economia centrada na pecuária (bovina e ovina) e na agricultura (trigo e de subsistência). Mas em 1915 tudo mudaria, como se conta na sequência.

Também o que se passa a contar neste trecho tem base em fatos reais e relativamente bem conhecidos na história, embora poucos saibam da relação dramática de Cacimbinhas com um crime que abalou o país em 8 de setembro de 1915: o assassinato de José Gomes Pinheiro Machado, um precursor do movimento republicano brasileiro, senador desde 1890 e, no seu tempo, o político gaúcho de maior influência nacional.

O crime foi cometido por Francisco Manço de Paiva Coimbra, filho de um padeiro português que havia se estabelecido em Cacimbinhas – e que o expulsara de casa devido a incompatibilidades irreconciliáveis. Com o pai sendo eleitor do Partido Republicano Rio-grandense (de Pinheiro Machado), o filho seguiu vida errante, circulando por Pelotas, Rio Grande, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, envolvendo-se com exploração de mulheres, falsidade ideológica, extorsão e roubo; e participando de manifestações contrárias aos governos estadual (de Borges de Medeiros) e federal (de Hermes da Fonseca).

Com o PRR onipresente na política gaúcha e a oposição esfacelada, as disputas municipais eram internas. Cacimbinhas não fugia à regra, e, dividida entre duas facções, fez com que o governo estadual lhe enviasse um emissário, o rábula Ney de Lia Costa que, em vez de pacificar a disputa, fez-se parte dela, assumindo um dos grupos e viabilizando-se como intendente provisório. Foi nessa condição que, em 30 de outubro de 1915, ele mudou o nome de Cacimbinhas para Pinheiro Machado, por ato unilateral, sem consulta às lideranças e à população.

A rebelião foi inevitável: embora não se discutisse a justiça de uma homenagem ao gaúcho ilustre barbaramente apunhalado pelas costas por um antigo morador de Cacimbinhas, não se esperava que esse preito atingisse o nome da vila e fosse imposto um castigo coletivo à sua população. O provisório foi irredutível aos argumentos das lideranças, que também não obtiveram receptividade no Palácio do Governo (então ocupado interinamente pelo vice-presidente, Salvador Pinheiro Machado, irmão do senador assassinado).

A consequência desse embate - até então levado a efeito em reuniões locais e em dezenas de telegramas encaminhados ao presidente licenciado Borges, ao vice Salvador e ao secretário do Interior, Protásio Alves – foi o enfrentamento armado. O autor do presente artigo escreveu, em 2015, “A guerra de Cacimbinhas”, livro-reportagem que trata do acontecimento e de suas consequências ao longo do tempo, estendidas à atualidade. No caso imediato, os “cacimbinhistas” obtiveram um sucesso inicial, expulsando o provisório da Intendência e da vila, mas a esse êxito breve sucedeu uma derrota política a seguir: o retorno e a reposição de Ney de Lima Costa ao cargo, pelo reforço que o governo havia enviado: tropas da Brigada Militar e o chefe de Polícia, Antônio Vieira Pires.

Mas Costa também não teve tempo de comemorar: reposto num dia, no outro já estava desalojado do poder, pelo mesmo emissário de Borges e Salvador. A “pacificação” imposta puniu ambas as facções em combate, e deu um aviso óbvio sobre quem mandava na política estadual. Cacimbinhas, a partir de então e até 1924 foi governada por intendentes nomeados. Nesse ano, finalmente, Hipólito Ribeiro Junior, um dos líderes da rebelião de 1915, foi eleito para um mandato completo de quatro anos – mas teve que afastar-se até setembro de 1925, para comandar tropa governista em enfrentamento com os federalistas, na chamada revolução de 1924. Os dez anos que se passaram contribuíram para repor a política local na normalidade institucional, mas não para que Cacimbinhas retornasse como nome do município, o que se conta na sequência.

Se Pinheiro Machado se impõe como nome oficial do município que, desde 1937, evoluiu de vila à cidade, pode-se dizer que Cacimbinhas persiste no imaginário, nos corações e nas mentes de quem habitou e habita esse rincão do extremo sul gaúcho. Essa apropriação do nome original, por certo, foi bastante intensa nos anos subsequentes à mudança, e assim se manteve enquanto viveu a sua geração mais diretamente afetada pela arbitrariedade.

O movimento pela retomada da denominação original, que por cerca de uma década movimentou as linhas telegráficas em direção ao Palácio do Governo (depois, Palácio Piratini) e à Assembleia Legislativa encontrou eco na imprensa local, que até os anos 1950 ostentava Cacimbinhas em seus cabeçalhos, em todas as edições; e na transmissão de gerações aos que nasceram depois de 1915.

A campanha prolongou-se pelas décadas seguintes, podendo ser verificada nas correspondências pessoais de seus moradores, sempre iniciadas com a palavra Cacimbinhas a indicar a data. Nem mesmo a substituição de gerações, ao longo do tempo, arrefeceu a apropriação do nome inicial que, assim, tornou-se afetivo e, pode-se dizer, afirmativo como indicação de origem de seus nativos e habitantes.

Iniciativas formais de mesmo objetivo também foram tomadas: em 18 de maio de 1952, representantes da comunidade criaram a Sociedade Amigos de Cacimbinhas que, entre outras atribuições, manteve intensa e regular participação na luta frustrada pela retomada do nome original do município.

O próprio brasão de armas do município, criado por lei de 27 de outubro de 1962 e ainda vigente, inclui em um de seus três campos o desenho de uma cacimba e o termo CACIMBINHAS, justificados assim:

“Recordação histórica da antiga capela de Nossa Senhora da Luz de Cacimbinhas e também um preito aos primeiros estancieiros que aí armaram seus galpões: José Dutra de Andrade e Antonio de Oliveira, que doaram a área territorial necessária à ereção da capela e onde se assenta a cidade de Pinheiro Machado” (DUTRA, 2017, p. 27-28).

Já a bandeira destaca, sobre as três listras que reproduzem as cores do pavilhão rio-grandense, os mesmos elementos do brasão, em especial a palavra Cacimbinhas, com todas suas letras em maiúsculas.

Na década de 1980, no próprio CCTG Lila Alves, surgiu o Piquete de Tradições Gaúchas Posteiros de Cacimbinhas - "pra manter viva a memória e honrar a tradição desta querência rainha" (conforme versos de Luiz Henrique Chagas). Na mesma época, o CCTG criou a Campereada das Cacimbinhas, rodeio crioulo local que ocorre até os dias de hoje.

Já na década seguinte, circulou na cidade a Voz das Cacimbinhas, veículo impresso de informação, editado pelo advogado Laudelino de Moura Junior, que foi vereador e presidente da Câmara Municipal.

Cacimbinhas circula, também, em manifestações musicais, como “Cacimbas”, vencedora da 6ª Comparsa da Canção (1992) – com letra do autor do presente artigo, melodia de Norma Coronel Trindade e interpretação de Robledo Martins (também eleita a mais popular e a melhor poesia): “Nas cacimbas desta terra/vim limpar minha existência,/lavar os olhos da guerra,/tomar banhos de querência”. E em “Milonga para Cacimbinhas”, apresentada na 7ª edição do mesmo festival (1993), com letra de Sejanes Dornelles, música e interpretação de Quininho Dornelles – classificada como a mais popular e, desde 1994, instituída como hino nativista do município, pela Câmara Municipal: ‘“Nossa Senhora da Luz”/e “Pouso das Cacimbinhas”,/dentro da história caminhas/para um futuro grandioso./E teu nome tão saudoso,/sem consultar foi mudado/para “Pinheiro Machado”,/mas não te baixaram o toso’.

O advento das novas tecnologias e a criação de mídias próprias, individuais e coletivas, tornou possível o surgimento, em 2011, do Grupo Cacimbinhas City na rede social Facebook. Ainda em atividade, o grupo tem hoje 3,5 mil membros. Esse canal de reaproximação e congraçamento entre quem permanece na cidade (pouco mais de dez mil habitantes) e os que a deixaram, mas mantêm vínculos familiares e afetivos, tem contribuído para a circulação de dados e informações relevantes sobre a história municipal e de sua gente. Podese, mesmo, dizer que esse conteúdo, fartamente ilustrado com materiais de acervos pessoais, atenua, ainda que virtualmente, a incompreensível inexistência de um museu municipal.

Ainda resultante da evolução tecnológica, funciona na internet, desde 2017, o blogue DiCacimbinhas, assim explicado por seu criador, Gabriel Medeiros: “O blog servirá para postar notícias/opiniões sobre assuntos relacionados a Pinheiro Machado, como também se de relevância de municípios da região”. Nesse espaço é possível acompanhar a já citada “A guerra de Cacimbinhas”, na forma de folhetim eletrônico e por capítulos. No mesmo ano, o jovem Saullo Guilherme dos Santos Dutra, Piá Farroupilha da 21ª RT (Região Tradicionalista) promoveu a 1ª Campereada Mirim nas Cacimbinhas.

Como se pode observar, essa dicotomia entre Cacimbinhas e Pinheiro Machado é condição que permanece. Hoje, menos como enfrentamento e mais como convívio entre ambas as denominações, uma na condição afetiva, outra na oficial. A criação do CCTG Lila Alves é uma demonstração a mais dessa situação. Em uma terra tão afetada pelo que aqui vem sendo contado, um Centro de Tradições Gaúchas precisaria associar o gentílico ao nome, completando-se, assim, como Centro Cacimbinhense de Tradições Gaúchas Lila Alves, como se conta adiante.

O Centro Cacimbinhense de Tradições Gaúchas Lila Alves foi criado em 31 de julho de 1953. Sua fundação ocorre, assim, quando a luta pela retomada do nome original da cidade ainda era vigente – e envolvia mobilizações junto ao Executivo e ao Legislativo estaduais, e neste último caso incluindo entre os interlocutores o então deputado Paulo Brossard de Souza Pinto. Se então, quase 38 anos depois do fatídico ato do intendente provisório, a comunidade ainda buscava resgatar o nome original, era natural que uma organização social em criação se engajasse a essa pretensão.

Sua finalidade principal: “preservar o núcleo de formação gaúcha, a filosofia do movimento tradicionalista gaúcho, difundindo as coisas do pago, que serviram de história, levando-as ao futuro, para se estudar a cultuar aquilo que foi costume em nossos antepassados, que nos é legado através do Movimento Tradicionalista Gaúcho”, conforme a Ata de Fundação, constante nos espetaculares arquivos de Odil Peraça Dutra, conservados exemplarmente por seu filho Luiz Carlos Leal Dutra, o Carlitos.

Dutra, que presidiu o Lila Alves nos períodos de 1968/69 e de 1983/84, registra em sua “Monografia Histórica do Município de Pinheiro Machado (ExCacimbinhas)”, obra lançada originalmente na década de 1990 e que em 2017 teve sua terceira edição, dados relevantes sobre a criação do CCTG – e que são os únicos disponíveis em bibliografia, até a atualidade. Conta que a reunião de organização do Lila Alves ocorreu sob presidência de Miguel Rodrigues Barcelos, na residência de Leonídio Pandiá Cardoso, e que entre as suas justificativas estava a de “procurar conservar intactas as tradições”. Barcelos era filho do médico Jonathas Rodrigues Barcelos, uma das personagens mais atuantes nos acontecimentos de 1915 e um importante opositor do intendente provisório.

Ainda conforme Dutra (2017, p. 246), o grupo criador argumentava então que “tradição não é só trajar-se de gaúcho, andar a cavalo, comer churrasco e cevar o amargo; é muito mais, é atividade, é vivência do pago que se transmite de geração para geração”. Assim, embora não tenha ficado registrada a razão pela qual o Lila Alves é um CCTG, com duplo C, parece plenamente justificável 21 na própria argumentação de sua fundação, em palavras escritas na ata inaugural, como “difundindo as coisas do pago, que serviram de história” – já que o episódio da mudança do nome do município é, ao que tudo indica, o mais dramático de sua história já quase sesquicentenária.

Também é possível encontrar esse vínculo entre o passado (1915) e o presente de então (1953) na consequência natural apontada na ata para a difusão da história local: “levando-a ao futuro, para se estudar e cultuar aquilo que foi costume em nossos antepassados” (IDEM). E na própria definição de tradição, apontada pelo grupo fundador: “(...) é atividade, é vivência do pago que se transmite de geração para geração”.

Mário Ratto da Silveira, Jorge Paniágua, João Ari Alves Martins, Gaspar Bueno de Moura e Alexandre Jacques Ortiz assinam a ata de criação do CCTG Lila Alves, além dos já referidos Barcelos e Cardoso.


Por Francesca Mondadori

Saberes & Fazeres, todos os domingos no Relicário Café

 

    Com a técnica de Paulo Elias Daniel e a apresentação de Marco Aurelio Alves, o Saberes & Fazeres ganhou o aroma do Relicário Café, além de ter passado para os domingos, às 19h30.

    Pegue uma folga no domingo, visite o bric da Redenção e, no final da tarde, vá tomar um café e aproveitar as belas entrevistas feitas por Marco Aurelio. Prestigie.

Vem ai, o Curso de Folclore Gaúcho da CGF

 


https://forms.gle/k4cVERiCutmVaLV7A  Formulário

Pix é o CNPJ da Comissão Gaúcha de Folclore - CGF: 02.279.554/0001-03    R$60,00

ou quem precisar fazer transferência: 

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sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Contos do Curso de Formação Folclórica de 2022

 Como forma de preservar e valorizar as manifestações culturais populares do Rio Grande do Sul, despertar o interesse e o gosto pelo folclore regional, bem como enriquecer o conhecimento de novos integrantes, a Comissão Gaúcha de Folclore disponibiliza o Curso de Formação Folclórica, todos os anos. Ao final do curso é solicitado um trabalho que, no ano de 2022, foi sobre a pesquisa e elaboração de um conto local.

 

Quem traz o conto de hoje é de Sandra Marília Pippi Peixoto


Os Conto Locais


Os contos locais, sobre o Lobisomem, que são narrados em Val de serra, localidade de mais ou menos 600 pessoas, no município de Júlio de Castilhos, são contados pelos avós, pais e também por novos moradores, até adolescentes, que mesmo morando há pouco tempo escutam as histórias, de um bicho peludo, com grandes orelhas, que batem uma na outra, e com enormes dentes.

Há quem disse que viu, outros escutaram uivos, barulhos, batidas nas portas, e alguns aprenderam, até uns dizeres para afastar o Lobisomem ou no outro dia identificar quem se transformava no “bicho”. São muitos causos, e também o comentário que nos dias de hoje, não aparece mais o Lobisomem, mas alguns escutam uivos. O certo é que quase ninguém duvida.

Conta um senhor, morava um pouco afastado da vila, e que às vezes dava um passeio, na casa de parentes ou amigos. Numa sexta-feira, ficou um pouco mais tarde, a prosa estava boa, mas antes da meia noite, tratou de voltar, e ao chegar na porteira, mais ou menos uns trezentos metros de sua casa, assoviou para os cachorros, que vieram encontrá-lo, seguindo tranquilos, pela estrada, a lua bem clara, e chegando no galpão, onde tinha seu quarto, ao lado da casa de seus pais, foi deitar e os cachorros, como sempre, ficaram lá fora, na porta do galpão.

Alguns minutos passaram, e os cachorros começaram a latir, avançando em alguma coisa, o rapaz levantou e abriu uma fresta da porta, e viu um enorme bicho, parecendo um porco, mas muito maior, com grandes orelhas, que batiam uma na outra, fazendo muito barulho, fechou rapidamente a porta, e ficou muito quieto, até que tudo ficou novamente em silêncio, em seguida seu pai veio, olharam por tudo, mas nada mais havia, apenas os cachorros ainda assustados, a noite clara e tranquila, ficando a certeza que era o Lobisomem.

Outro conto, foi de uma avó que escutou uma história: Uma senhora contou que seu vizinho, sempre saia cedo da noite, nas sextas-feiras de lua clara, e no outro dia dormia até tarde. Uma noite resolveu cuidar, e viu o vizinho sair e se dirigir para um galinheiro.

Curiosa, vestindo um vestido vermelho, foi dar uma espiada, e ao chegar perto do galinheiro, viu aquele bicho horrível, peludo, orelhas grandes, que batiam uma na outra e grandes dentes, e ao avistá-la veio ao seu encontro, e ela saiu correndo, subiu numa árvore alta, e o bicho tentava pegá-la, mas apenas conseguiu rasgar a barra do vestido que era comprido. Vieram cachorros e o bicho saiu em disparada.

No outro dia, a senhora foi na casa, e muito disfarçadamente conseguiu dar uma olhada no quarto, onde o senhor dormia, com a boca um pouco aberta, apenas pode reparar que nos seus dentes havia uns fiapos vermelhos. E assim, nas rodas de conversas, muitas histórias são contadas.



Por Francesca Mondadori

segunda-feira, 31 de julho de 2023

Contos do Curso de Formação Folclórica de 2022

 

Como forma de preservar e valorizar as manifestações culturais populares do Rio Grande do Sul, despertar o interesse e o gosto pelo folclore regional, bem como enriquecer o conhecimento de novos integrantes, a Comissão Gaúcha de Folclore disponibiliza o Curso de Formação Folclórica, todos os anos. Ao final do curso é solicitado um trabalho que, no ano de 2022, foi sobre a pesquisa e elaboração de um conto local.

 

Quem traz o conto de hoje é de Pablo Cassio Soares Vaz


“O Morto da Produção”

O Santo Popular de Soledade - RS

 

          Em 1965 em Soledade - RS acontece um “Misterioso Assassinato”, um corpo sem identificação é achado às margens da estrada da Produção (atual BR 386), desafiando a astúcia da polícia local e comovendo a cidade inteira. Criam-se boatos que aumentam a fama do morto, mas atrapalha o andamento do caso que continua sem solução até os dias de hoje, o imaginário popular e interesses políticos criam várias versões sobre o fato e elementos sociais ajudam a transformar um desconhecido em um Santo Popular.

A Região de Soledade na década de 60 sofria fortes resquícios do coronelismo, segundo José Murilo de Carvalho, “o coronelismo como sistema nacional de poder, acabou em 1930, mais precisamente com a prisão do governador gaúcho Flores da Cunha, em 1937. O centralismo estado novista destruiu o federalismo de 1891 e reduziu o poder dos governadores e de seus coronéis. Todavia, os coronéis não desapareceram por completo”, deste modo o desemprego e a desigualdade social se acentuavam, com uma política autoritária e centralizada, tinha como algum de seus resultados como afirma José Pinheiro (1965, p.5), a perda de seus distritos que um a um se emancipavam abruptamente e deixavam chagas irreparáveis na grande mãe. Sendo um município histórico onde sua emancipação ocorreu no século XIX (1875), sempre foi encalço de várias histórias, lendas e mitos, inclusive o que se diz dar início a povoação na região à chamada “Lenda de Soledade”.

Assim na oralidade popular se acentua as várias versões criando-nos inúmeros “historiadores de contos”, desta forma a qualquer acontecimento sem explicação na cidade, sempre se existia versões que explicavam e elucidavam o caso, não sendo diferente ao objeto aqui estudado.

O motivo pelo qual escolhemos esse tema seria para ter mais conhecimento da trajetória deste homem que se torna um “Santo Popular”, após a sua morte, mas em vida é um completo desconhecido, principalmente ao analisar a situação política e social da década de 60, na região de Soledade. Assim, fazer uma ligação para argumentar sobre o motivo que uma comunidade inteira se torna devota de um estranho.

O estudo é relevante, pois poderemos colocar um olhar novo sobre os resultados políticos e comunitários na região de Soledade, a necessidade de identificação de uma comunidade e seu escape social devido às intempéries da década de 60.  Desta forma, analisando a situação política social propícia para o acontecimento a nível regional comparando com o estadual e federal.

Torna-se viável esta pesquisa na forma em que o registro do personagem em questão está em parte de posse do policial designado da época, este também contribuiu com uma valorosa memória oral, e ainda os periódicos da época que relataram os fatos. Somados as memórias orais de devotos e a possibilidade de encontrar o processo do crime inteiro sobre o personagem estudado.

Não encontramos informações sobre qualquer publicação acadêmica, apenas uma publicação no livro Mitos e Lendas do Rio Grande do Sul de Antônio Fagundes (2009, p.42), que acreditamos ser de apenas memória oral, pois não há referência alguma. Esta pesquisa anterior tentava buscar a vida antecedente do personagem e não pontua a sua interferência social, a sua transformação quase que instantânea e “milagrosamente” em santo.

Por isso o método de pesquisa não se restringe a vida do personagem, mas sim tenta explicar a ação dessa população que buscou em um desconhecido a solução para seus problemas.

Em relação ao imaginário social os títulos trabalhados são as Ideologias e Mentalidades e de Michel de Vovelle, A Escrita da História de Michel de Certeu.

No primeiro o autor compara as mentalidades e ideologias e considera seus pontos em comum e suas diferenças, as mentalidades compostas de acordo com as vivências empíricas e a ideologia mais elaborada criadas com o propósito de dominação de classe, mas em comum descreve Vovelle

Todavia existe entre os dois termos uma indiscutível e ampla área de superposição. [...] para alguns que as mentalidades se inserem naturalmente no campo do ideológico, enquanto para outros a ideologia, no sentido estrito do termo, não poderia ser senão um aspecto ou um nível no campo das mentalidades. (VOVELLE, 1991, pag. 17).

O autor ainda relata de um terceiro nível não marxista, que apesar de ser um compromisso burguês tem preocupações coletivas.

Nesse investimento coletivo na historiografia dos países liberais, [...] parece nitidamente ser a noção de mentalidade mais flexível, desembaraçada de todo conotação ideológica, a parte premiada e mais operatória, a melhor habilitada, graças à própria sutileza de que se reveste, a responder às necessidades de uma pesquisa sem pressupostos. (pág. 18).

Mesmo entre as diferenças entre mentalidade e ideologia e os vários pontos de vista dos historiadores de acordo com sua linha de pesquisa Vovelle conclui a importância da história das mentalidades

O estudo das mentalidades, longe de ser um empreendimento mistificador, torna-se, no limite, um alargamento essencial do campo de pesquisa. Não como um território estrangeiro, exótico, mas como prolongamento natural e a ponta fina de toda história social. (pág. 25).

Desta forma mostra-se a importância da história das mentalidades e sua aceitação como história acadêmica cientifica, e transformar a história oral em escrita, muito mais mistificada depois de passado a geração, mas não impossível de sua veracidade.

Assim como relata Michel de Certeu em a Escrita da história no capitulo a tradição da morte onde é relatado “É necessário morrer de corpo para que nasça a escrita. Esta é a moral da história. Ela não se prova senão graças ao sistema de um saber. Ela se conta”. (CERTEAU, 3° ed., 2011).

Ainda insistimos com a colocação de José Carlos Sebe Bom Meihy em o Manual de História oral à seguinte conclusão

Como pressuposto, a história oral implica uma percepção do passado como algo que tem continuidade hoje e cujo processo histórico não está acabado. A presença do passado no presente imediato das pessoas é a razão de ser da história oral. Nesta medida, a história oral não só oferece uma mudança para o conceito de história, mas, mais do que isso, garante vida social à vida dos depoentes e leitores que passam a entender a sequência histórica e sentir-se parte do contexto em que vivem. (MEIHY, 3°ed. 2000).

Depois dessa visão da memória oral de mentalidades e ideológicas tão necessária para o nosso projeto, pois a base são os relatos orais e periódicos, não podemos esquecer a menção política tão atenuante nessa região que ajuda a distorcer fatos e até criar outros.

A necessidade de chegar ou manter-se politicamente no poder e a prejudicar adversários de outros partidos leva a transformar um caso, considerado comum em seu caráter de homicídio, a um desfecho político.  Desta forma como relata o periódico soledadense “O Paladino” em que menciona a acusação de uma família soledadense pelo crime “segundo apurou nosso jornal pessoas inimizadas com Wanseslau Coelho Portella e seu filho Mário, ambos residentes neste primeiro distrito, onde gozam de ótimo conceito, procuraram incrimina-lo dando azo à instauração de inquérito policial a respeito” (1965, p. 3) o periódico descreve, a seu interesse, ser uma acusação falsa para com essa família de Soledade.

Como relata Caroline Webber Guerreiro à violência política em Soledade é acentuado em relação a outros municípios, este insiste em cultuar suas eras de coronelismo como se fosse atual, indivíduo mandatário político usando-se de vários meios para se manter no poder, assim influenciando todas as esferas da sociedade, “Não se pode negar que as inúmeras práticas ilícitas, em grande parte violentas, ligadas a tentativas de manutenção do poder de mando através da vitória nas eleições tenham deixado sua marca na população de Soledade, ocupando espaços no imaginário local"(GUERREIRO, 2005, p. 133).

Desta forma exaltamos a influência política a casos que de fato seriam relevantes a o meio criminal, mas dependendo da situação na visão do articulador certo, se vira um grande trunfo político.


Por Francesca Mondadori

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Contos do Curso de Formação Folclórica de 2022

 

Como forma de preservar e valorizar as manifestações culturais populares do Rio Grande do Sul, despertar o interesse e o gosto pelo folclore regional, bem como enriquecer o conhecimento de novos integrantes, a Comissão Gaúcha de Folclore disponibiliza o Curso de Formação Folclórica, todos os anos. Ao final do curso é solicitado um trabalho que, no ano de 2022, foi sobre a pesquisa e elaboração de um conto local.

Quem traz o conto de hoje é de Carla Thoen.

 

Os Contos Locais

 

No RS, uma obra famosa e largamente conhecida é “Contos Gauchescos”, de João Simões Lopes Neto. Editada pela primeira vez em 1912, referida obra apresenta 19 contos com temática gauchesca do pampa gaúcho. As histórias são narradas por Blau Nunes, com aventuras de peões e soldados. Versam sobre o gaúcho, rústico, guerreiro, trabalhador, sempre enaltecido nas narrativas de guerra (ambientadas na Revolução Farroupilha). O vocabulário é típico, e a leitura, por vezes, impulsiona a busca do dicionário de regionalismos.

Amparada pelos conceitos teóricos, conversei com pessoas que conviveram com o casal Lúcio e Cilda Petersen, a fim de resgatar pelo menos um dos muitos contos narrados por eles.

E assim vem a história do Prudêncio...

Prudêncio, um cusco minguadinho, branco com pintas pretas, que viveu pelo menos dez anos. Era esperto e carinhoso. No fundo da casa em que vivia, havia um galinheiro, com galinhas poedeiras, cujos ovos eram colhidos para consumo da família.

Certa manhã, Cilda ouviu um grande barulho no galinheiro. Ao dirigir-se até lá, para verificar o que tinha acontecido, deparou-se com Prudêncio, rebocado de gema e clara em seu focinho.

A pedagogia antiga se fez valer, e Prudêncio levou uma sova bem gaúcha. Lúcio finalizou o dia tranquilo, certo de que, o seu melhor amigo, tinha aprendido a lição.

No outro dia, cedo, mais uma vez se ouviu um estardalhaço no galinheiro. O casal correu até o local e lá estava Prudêncio, mais uma vez, satisfeito e lambuzado de ovo.

Sem titubear, Lúcio pegou Prudêncio com uma mão, e com a outra, pegou um ovo, entrou na casa a passos largos e pôs o ovo a ferver. Quando o ovo estava cozido, retirou da vasilha e colocou na boca do cusco. Contam que chegou a sair fumaça “das ventas”. Cilda não pôde nem olhar a cena, tamanha a pena que sentia do cachorro.

Certos de que Prudêncio, desta vez, havia aprendido a lição, soltaram-no no pátio. Prudêncio ficou sumido o restante do dia.

E passou o dia... e caiu a noite...

Có... cocóricó... Foi o que se ouviu na manhã seguinte. Lúcio saiu muito bravo, para dar um fim naquele cusco. Afinal, amigos amigos, ovos à parte. No que estava chegando na porta, ouviu um novo som, desta vez uma espécie de arranhão na porta. Abriu-a e, para sua surpresa, lá estava Prudêncio, com o ovo intacto na boca. Largando o ovo no chão, saiu correndo em direção ao fogão, apontando o focinho para a caneca...

E não é que o cusco tinha gostado mais do ovo cozido do que do ovo cru... ?

 

Esse conto foi narrado pelo casal, fundadores dos dois CTGs de Gramado: Manotaço e Rodeio Velho. Seu registro foi possível através de lembranças pessoais e da entrevista com um dos netos do casal, Rodrigo Krause.




Por Francesca Mondadori

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Contos do Curso de Formação Folclórica de 2022

 

Como forma de preservar e valorizar as manifestações culturais populares do Rio Grande do Sul, despertar o interesse e o gosto pelo folclore regional, bem como enriquecer o conhecimento de novos integrantes, a Comissão Gaúcha de Folclore disponibiliza o Curso de Formação Folclórica, todos os anos. Ao final do curso é solicitado um trabalho que, no ano de 2022, foi sobre a pesquisa e elaboração de um conto local.

Quem traz o conto de hoje é Patrícia Lautert.

 

História do nome de uma cidade chamada Uruguaiana

 

Naqueles tempos os campos eram totalmente abertos, não haviam fronteiras definidas. Por um rio dividia as terras, como acontecia pelas bandas do velho Uruguai que corria solto entre o Rio Grande de São Pedro e as terras lindeiras da Argentina.

Os gaúchos que cavalgavam de um lado para outro, instalando pousadas aqui e ali, um dia montaram um acampamento junto a um vau do Uruguai e por ali se instalaram, denominando a localidade de Passo de Santana. Logo, logo, criou-se junto aos ranchos um posto militar, que era para controlar os contrabandos.

No rancho de um campeiro, que tinha uma uruguaia por parceira havia nascido nos primeiros tempos uma menina muito linda, que batizaram com o nome de Ana, em homenagem à santa padroeira do lugar.

A moça crescia, ficava cada vez mais bonita e atraía a atenção de todos, embora ela não se interessasse por ninguém.

Um dia, porém, chegou um moço muito distinto para servir no posto militar. Era elegante no seu fardamento e, por sua vez, chamava a atenção das poucas moças do local. Quando, numa tarde, foi banhar-se no Uruguai, lá estava Ana, com seus longos cabelos negros, mergulhando graciosamente. Seus olhares logo se cruzaram e explodiu entre eles uma paixão muito forte.

Passaram a encontrar-se nos fins de tarde, à beira do Uruguai, rio que entrara definitivamente em suas vidas.

No entanto, no dia em que o pai dela descobriu o namoro, quis proibir que eles se vissem ou se encontrassem. Foi impossível. O amor era mais forte.

Veio, então, a medida extrema. Fez a moça embarcar, às escondidas do rapaz, para a terra de sua mãe (porque o Uruguai naquela época era navegável) e ela não teve tempo de, ao menos, despedir-se dele. Ficaria, em definitivo, no Uruguai, morando.

Mal pôde escrever na areia, junto ao rio, também às escondidas do pai, sua última mensagem, para indicar o seu destino e assiná-la: URUGUAI. ANA

Anos depois os farrapos juntaram os dois nomes para denominar a cidade que ganhou em definitivo Sant’Ana como Orago...



Por Francesca Mondadori